segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vou-me embora pra Pasárgada...




Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


Genial poesia de Manuel Bandeira

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sem música a vida seria um erro...

Posto hoje uma referência musical. O nome dela é Kristin Asbjørnsen, uma cantora e campositora norueguesa de jazz que possui uma voz definitivamente singular. Marcante, melancólica. Essa moça tem despertado a atenção daqueles que gostam de jazz e também, de críticos de música. O que me despertou bastante interesse é o seu interesse em interpretar poesias em suas músicas, e a que posto abaixo é do poema "Wind the clock" de Bukowski.

It's just a slow day
Moving into a slow night
It doesn't matter
It doesn't matter what you do

Everything just stays the same
The cats sleep it off, the dogs don't bark
Everything just stays the same
There's nothing even dying




"Slow day" faz parte da trilha sonora de um filme (que ainda não assisti), do cineasta norueguês Bent Hamer, que conta um pouquinho da história desse anti-herói. O filme foi entitulado "Factotum", assim como o livro homônimo do mesmo.

"All theories
like clichés
shot to hell,
all these small faces
looking up
beautiful and believing;
I wish to weep
but sorrow is
stupid.
I wish to believe
but belief is a
graveyard.
We have narrowed it down to
the butcherknife and the
mockingbird.
wish us
luck."




Esta acima é a versão de "I wish to weep" que é sensacional, pois acrescenta violinos vitorianos à poesia inconfundível do poeta citado.



A citação de Nietzsche que entitulou meu post explica mesmo tudo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Inconstância dos bens do mundo



Fotografei em minha viagem à Natal (RN) em meados de julho do ano passado. Lugar belíssimo!


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
e é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

domingo, 8 de agosto de 2010

Combustão Humana Espontânea (CHE)

Você sabe o que é “Combustão Humana Espontânea” (CHE)? É quando simplesmente o corpo de uma pessoa se incendeia de dentro pra fora sem nenhuma causa aparente ou influência externa.



A morte de Jeannie Saffin é apontada por muitos como prova incontestável do fenômeno da combustão espontânea. É na verdade um dos únicos casos em que a vítima pegou fogo sem razões aparentes em frente a testemunhas. Às 4 da tarde de uma quarta feira de setembro em 1982, Jeannie Saffin, que tinha 61 anos, mas a idade mental de uma criança de 6, estava sentada na cozinha de sua casa quando repentinamente foi tomada por chamas. Seu pai de 82 anos, que estava sentado na mesa próxima, disse que viu um clarão pelo canto dos olhos e quando se virou viu a filha coberta por chamas, principalmente na boca e mãos. Segundo o senhor Saffin, Jeannie não emitiu nenhum ruído. Ficou parada enquanto era consumida pelas chamas. De acordo com os paramédicos a cozinha estranhamente não apresentava marcas de chamas ou fumaça. Suas roupas também sofreram poucas queimaduras. Os policiais que investigaram a morte da mulher não puderam encontrar uma causa para sua combustão. A única teoria capaz de explicar o caso até hoje é a de que Jeannie queimou de dentro pra fora sem causa ou razão.

O primeiro relato conhecido de um caso de CHE é de autoria do anatomista dinamarquês Thomas Bartholin que, em 1663, descreveu como uma mulher, em Paris, “foi reduzida a cinzas e fumaça” sem que o colchão de palha em que dormia, fosse danificado pelo fogo.

Pouco depois, o francês Jonas Dupont relatou uma série de casos semelhantes, na obra “De Incendiis Corporis Humani Spontaneis” (1673).

No segundo quartel do século XIX, M. J. Fontelle reviu alguns casos perante a Academia Francesa de Ciências (1833), tendo observado que as vítimas tendiam a ser mulheres idosas que consumiam bebidas alcoólicas e que os danos do fogo não se estendiam aos materiais inflamáveis próximos ou mesmo no corpo delas.

Incêndios estarrecedores que intrigam bombeiros, investigadores, e peritos, corpos incinerados a mais de 1300° Celsius e reduzidos a uma pilha de cinzas sem sinal de material ígneo.

Esses são os fatos da pirocinesia, ou combustão espontânea, um dos fenômenos mais desconcertantes de natureza paranormal. Com violência e uma velocidade espantosa, chamas intensas e inexplicáveis podem consumir em minutos, residências e corpos humanos.

De acordo com o Dicionário do Cético, “os céticos não acreditam que haja casos de CHE bem documentados, embora haja algumas centenas de histórias acerca de pessoas e cadáveres que entraram em combustão espontânea”.


Uma perna do joelho para baixo, foi o que sobrou do dr. J. Irving Bentley de Coudersport, Pensilvânia, em dezembro de 1966.

Retirado do Realidade Distorcida.

sábado, 7 de agosto de 2010

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

Oh, história!

Irei postar aqui a versão virtual de um livro que eu particularmente acho incrível. Ele reúne 100 histórias muitíssimo interessantes da mitologia. Foi redigido por dois autores gaúchos, Carmen Alenice Seganfredo e A.S. Franchini, que trabalham juntos desde 1999, ao repassarem uma série de contos mitológicos (a maior já lançada aqui no Brasil). Fiz o upload no badongo, que é de bem fácil utilização e além disso, é rápido.

Para baixar, basta clicar no nome do livro, que segue abaixo:
A. S. Franchini & Carmen Seganfredo - As 100 Melhores Histórias da Mitologia

O apanhador de desperdícios



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Escolho meus amigos não pela pele...

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde