domingo, 12 de dezembro de 2010

Meu sonho




Eu

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso.
E galopas do vale através.
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?.
Tu escutas. Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!. 

Álvares de Azevedo

Sem dúvida alguma, uma das poesias mais marcantes e significantes para a minha existência. Sei de cor e salteado, e me orgulho de pode entoar tais palavras... 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Soneto da escultura escandalosa




Esquentado frisão, brutal masmarro
Girava em Santarém na pobre feira;
Eis que divisa ao longe em couva ceira
Seus bons irmãos seráficos de barro:

O bruto, que arremeda um boi de carro
Na carranca feroz, parte à carreira,
Os sagrados bonecos escaqueira,
E arranca de ufania um longo escarro:

N'alma o santo furor lhe arqueja, e berra;
Mas vós enchei-vos de íntimo alvoroço,
Povos, que do burel sofreis a guerra:

Que dos bonzos de barro o vil destroço
É presságio talvez de irem por terra
Membrudos fradalhões de carne e osso!

Manuel Maria Barbosa du Bocage... ou simplesmente Bocage, o Desbocado!

sábado, 4 de dezembro de 2010

O mundo em que nada se resolve

Há alguma coisa na terra de que não se pode duvidar além da morte, a única certeza deste mundo? Duvidar e continuar vivendo – eis um paradoxo, embora não um paradoxo trágico, desde que a dúvida é menos intensa, menos consumptiva do que o desespero. A dúvida abstrata, da qual se participa de maneira parcial, é mais freqüente, enquanto do desespero se participa total e organicamente. Nem mesmo as formas mais orgânicas e sérias da dúvida atingem a intensidade do desespero. Comparado ao desespero, o ceticismo se caracteriza por um certo volume de diletantismo e de superficialidade. Posso duvidar de tudo, posso sorrir com desdém para o mundo, mas isso não me impedirá de comer, de dormir pacificamente ou de me casar. No desespero, cujas profundidades só podemos sondar experimentando-o, tais ações são possíveis apenas com um grande esforço. Assim, um homem genuinamente desesperado não pode esquecer a sua própria tragédia: sua consciência preserva a atualidade dolorosa de seu tormento subjetivo. A dúvida é ansiedade quanto a problemas e coisas e tem suas origens na natureza insolúvel de todas as grandes questões. Se tais questões pudessem ser resolvidas, os céticos reverteriam para estados mais normais. A condição do desesperado, a esse respeito, é totalmente diferente: se todos os problemas se resolvessem, ele não se tornaria menos ansioso, já que sua ansiedade emerge de sua própria existência subjetiva. O desespero é o estado no qual a ansiedade e a inquietude são imanentes à existência. Ninguém, no desespero, sofre com “problemas”, mas com o seu próprio tormento e fogo interior. É uma lástima que nada possa ser resolvido neste mundo. No entanto, nunca houve, nem nunca haverá, alguém que se suicidasse por essa razão. E o mesmo vale para o poder que a ansiedade intelectual exerce sobre a ansiedade total de nosso ser! É por isso que prefiro a vida dramática, consumida por fogos íntimos e torturada pelo destino, à vida intelectual, enleada em abstrações que não engajam a essência de nossa subjetividade. Desprezo no pensamento abstrato a ausência de riscos, de loucura, de paixão. Quão fértil e vivo é o pensamento passional! O lirismo o alimenta como sangue bombeado para um coração! É interessante observar o processo dramático pelo qual os homens, originalmente preocupados com problemas abstratos e impessoais, tão objetivos a ponto de se esquecerem de si mesmos, passam a refletir sobre sua própria subjetividade e sobre questões existenciais, quando experimentam a doença e o sofrimento. Os homens ativos e objetivos não dispõem de suficientes recursos interiores para fazer do seu próprio destino um problema interessante. É necessário descer por todos os círculos de um inferno íntimo para converter o destino de alguém num problema subjetivo e também universal. Se não fores reduzido a cinzas, então serás capaz de filosofar liricamente. Somente quando não te dignas sequer de desprezar este mundo de problemas insolúveis alcançarás uma forma superior de existência pessoal. E isso acontecerá não porque tens qualquer valor especial ou qualquer excelência, mas porque nada te interessa para além de tua própria agonia pessoal.


E. M. Cioran
On the heights of despair – Tradução de Renato Suttana

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Amiga






Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.


Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...


Beija-mas bem! ... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...


Florbela Espanca

domingo, 21 de novembro de 2010

Out of breath, I am left hoping someday I'll breathe again

Silence speaks softly... I'd like to whisper gently while my hands hold thy heart. 
Even drowned on thy blood, which tastes sweet... Sweet as a brandy wine. I lay my tongue and drink it all. Thirsty for thee.
Maybe that's only a desire. Or maybe I'm going insane. Hell knows I don't care for what another individuals may say.
I'm only playing a riddle I'll never be sure of it trully means.


Thy face is like an broken glass when these empty eyes cry. Crying a river that flows to my soul.
And alas! My life is a poetic tragedy. A life of a fool, living as it wasn't life at all! The greatest thing is living without thinking of what tomorrow can brings. We could wait patiently until path sew, millimeter after millimeter, our destination to nowhere.
Thy riddle is still inside of me. It burns and I couldn't blow thy candle away.
Could never unveil or solve it through my eyes or my skin.
I doubt my senses. I have none to discover thine.


My lunatic thoughts... Once in a blue moon they appear screaming and words help me vomiting all possible visceral agony of waiting.


Th.

domingo, 14 de novembro de 2010

If thou kiss not me?


Love's Philosophy
by Percy Bysshe Shelley

 
The fountains mingle with the river   
And the rivers with the ocean,   
The winds of heaven mix for ever   
With a sweet emotion;   
Nothing in the world is single, 
All things by a law divine   
In one another's being mingle—   
Why not I with thine?   
   
See the mountains kiss high heaven,   
And the waves clasp one another; 
No sister-flower would be forgiven   
If it disdain'd its brother;   
And the sunlight clasps the earth,   
And the moonbeams kiss the sea—   
What is all this sweet work worth 
If thou kiss not me? 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Confissão silente

Tempo agradável. O friozinho inebria minha mente com inúmeras palavras tal qual o amor incendeia o coração de um mancebo enamorado. Uma vontade súbita de escrever por horas a fio me surge como uma necessidade, não unicamente intelectual, mas fisiológica. Pudera eu reservar um singelo dia de minha limitadíssima existência para embebedar-me de literatura e anoitecer, sonhando (acordada ou não - afinal a insônia é o alimento do pensamento) com poemas de amores: suas graças e dissabores; poemas tristes e melancólicos: o spleen inconfundível da alma! Pudera eu erguer meu onírico castelo medieval e cercar-me de magia! Observo porém minha face inconsolável sob o lago mudo. As lágrimas caem do céu e molham meu corpo, e meus lábios repentinamente sorriem frente a agradabilíssima sensação de sentir!
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Demência

Quando olho para mim não me percebo

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca propriamente reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


Álvaro de Campos